sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Relação entre neurociência e aprendizagem

Este artigo foi produzido para partir de palestra proferida pela Profª. Dra Elvira Souza Lima, na Jornada Pedagógica do Sindicato das Escolas Particulares do Estado de Santa Catarina (SINEPE), realizada no auditório do Colégio São Bento, em Criciúma. Ele pretende ser um caminho para refletir sobre os caminhos da aprendizagem e as contribuições da neurociência neste sentido.
Palestra-Neurociencia-Aprendizagem
Palestra sobre Neurociência e Aprendizagem
A palestrante iniciou dizendo que pedagogia é uma ciência de grande complexidade, pois trata do ensino para a formação das novas gerações. Ela utiliza, para tanto, outras áreas do conhecimento que estudam o ser humano. Para o século XXI, se anuncia uma contribuição importante para a educação formal vinda da neurociência, área do conhecimento que se estabeleceu na segunda metade do século XX. Pelo impressionante número de pesquisas e estudos, a neurociência ampliou significativamente nosso conhecimento sobre como nós, os seres humanos, nos desenvolvemos e aprendemos. Apesar do uso do cérebro ser objeto de interesse particular dos professores, nem sempre há uma harmonia entre a pedagogia e a neurociência.
Se até um tempo atrás a neurociência só tinha acesso ao estudo do cérebro morto, hoje esta limitação não se aplica. As tecnologias atuais permitem estudar o cérebro vivo, incluindo a ação dos neurônios. E as pesquisas afirmam que o cérebro, dada a sua plasticidade, muda a cada seis meses. Inclusive os adultos continuam a ter períodos de desenvolvimento cerebral. Neste sentido, a escola é de grande importância no desenvolvimento cerebral do jovem. As interações humanas, apesar de ocorrerem já no útero materno, adquirem significado ainda maior dentro da escola. E neste sistema de relações sociais, não é possível dissociar o aluno do professor.
A palestrante trouxe três afirmações bem interessantes, que desmistificam ideias já enraizadas na pedagogia. Uma destas afirmações é que nem tudo que aprendemos na escola precisa, necessariamente, ser aplicado na vida cotidiana. Segundo ela, mesmo quando o conhecimento não faz tanto sentido, ele transforma e desenvolve o cérebro, assim como melhora funções para outras áreas de nossa vida. É uma perspectiva interessante considerando que, em discussões sobre o currículo escolar, há um ênfase exagerado no conteúdo fazer sentido para o alunos.
Uma outra afirmação é a questão da escrita. Neste ponto, a palestrante citou o neurocientista francês Stanislas Dehaene, autor da obra “Neurônios da Leitura”. Dehaene diz que a língua materna pode ser aprendida até os sete anos, apesar do tempo de aprendizagem estar diretamente relacionado à complexidade do que estudamos. Assim, a leitura e escrita são essenciais para o aprendizado. Ler todo o dia, algum tipo de literatura, faz toda a diferença em médio e longo prazo, especialmente depois dos 40 anos.
A terceira afirmação tem relação com a memória. Fazer o aluno transformar informações escolares em conhecimento a ser lembrado em longo prazo – e não apenas para o vestibular – é um dos maiores desafios da educação no Brasil. A palestrante alerta que a aprendizagem é um processo longo e demorado, o que contrasta um pouco com o imediatismo em que vivemos atualmente. A memória de longa duração é ativada quando a informação que o professor passa se torna sistematizada. Mas vale lembrar que a memória não é só ganho. A escola tem que lidar com as perdas também, o que significa que algumas informações precisam ser retomadas para que se mantenham na memória. Um outro ponto importante é o papel da emoção no desenvolvimento da memória.
A palestrante também citou – e  não podia ser diferente – a questão da avaliação, um dos pontos de maior conflito na escola. Para ela, o conhecimento não deve ser associado a punição. Na Finlândia, a qualidade da educação tem relação com a resolução de conflitos de conflitos escolares, há um ambiente de cooperação. No Brasil, grande parte dos problemas de aprendizagem está relacionado com a falta de sistematização do ensino e, claro, com as dificuldades de concentração. Ela citou uma experiência na França, onde há uma matéria para desenvolver, no jovem, a capacidade de escutar, o que aumenta a empatia e a concentração.
Por fim, citou que, no Brasil, há pouco suporte para o professor. Segundo ela, deveria ter mais desenvolvimento humano, mais cuidado com o docente, que lida com várias turmas e vários jovens todos os dias. Da mesma forma, no geral, há pouca preocupação em criar, na escola, um ambiente harmonioso que propicie a aprendizagem. Na década de 1920, o psicólogo russo Vygotsky dizia que haveria uma revolução na educação, pelo acesso de todos à escola. Isto vem ocorrendo há algum tempo no Brasil. Porém, por aqui, quantidade não significa, necessariamente, qualidade.
* Este artigo foi publicado no jornal A Tribuna e Diário de Notícias.
Este artigo foi escrito por Roberto Amaral e não expressa, necessariamente, a opinião dos editores deste blog.
Como a Internet revolucionou a educação
A inclusão digital e a intensa presença dos meios digitais em nosso dia-a-dia faz com que seja praticamente impossível pensar em um mundo alheio a essas ferramentas. No entanto, não faz muito tempo que a Internet assumiu o papel que tem na sociedade atual.
Artigo-Internet-Educacao
Com uma versão primária desenvolvida no auge da Guerra Fria, a Internet foi criada como forma de facilitar o compartilhamento de informações. Novas ferramentas de aprimoramento foram elaboradas com o passar do tempo até que a web se tornasse o que é hoje.
Aos poucos, foi-se percebendo que a informática poderia ser de grande utilidade em áreas como a educação, sendo capaz de reunir grande quantidade de conteúdos e possibilitando novas formas de explorar as áreas de ensino. No Brasil, a utilização de computadores em aulas de física foi discutida pela primeira vez em 1970, em um seminário promovido pela Universidade Federal de São Carlos. Três anos depois, outras instituições de ensino aderiram à ideia e passaram a contar com computadores em salas específicas.
Nesse momento, as atenções de educadores de todo o mundo já estavam voltadas à possibilidade de aprimorar tal ferramenta digital para sua utilização massiva na educação. Foi então que, em 1984, teve início o Projeto Educom, uma iniciativa conjunta do Ministério da Educação, Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e Secretaria Especial de Informática da Presidência da República (SEI/PR). Um dos objetivos do programa era fomentar uma política nacional de educação digital.
Além da inclusão dos meios digitais nas instituições de ensino, o Ministério da Educação também voltou esforços para formar alunos capazes de entender e operar as ferramentas e funções ligadas à computação. Assim, em 1997, foi criado o Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo), cujo objetivo era a promoção do uso das tecnologias de informação e comunicação na rede pública de educação.
De lá para cá, os Governos Municipais, Estaduais e Federais uniram esforços para promover a inclusão digital, capacitar professores e equipar instituições. Universidades, escolas e colégios privados também aderiram ao movimento digital. Com tais ações, hoje não é exagero dizer que se vive uma verdadeira revolução da informática e da Internet na aprendizagem. Prova disso é a popularização de sites com conteúdos online , focados em vestibulares ou nos resultados do Enem.
A incorporação desses mecanismos alterou também o modo de assimilação e fixação dos conteúdos pelos alunos, que contam com toda a espécie de suporte eletrônico não só para complementar o que foi visto em sala de aula, mas também para realizar cursos completos, como é o caso da Educação a Distância.
www.historiadigital.com.br 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O declínio da autoridade

Por Mauro Malin em 09/09/2014 na edição 815 (Observatória da Imprensa)
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/ 
Dois tipos de poder entraram em xeque, de forma articulada, neste momento histórico: o do autor (de texto, livro etc.) e o da autoridade (pessoa ou instituição que comanda). Não por acaso, as duas palavras se originam do mesmo étimo latino, auctor.
A forma imutável, atributo do texto manuscrito ou impresso (isso inclui toda sorte de erros, dos mais inocentes aos mais grotescos), foi subvertida pelos programas de edição digital – e com ela, definitivamente, a emissão da mensagem “de um para muitos”.
(Esse “um” é sempre coletivo, mesmo quando se trata da única cópia de um manuscrito, a menos que o autor seja o artífice do instrumento de escrita e do suporte; panfleto, livro, missal envolvem técnicas que mobilizam uma cadeia de produtores, para não falar das tecnologias de telégrafo, cinema, rádio e televisão, listados aqui em ordem cronológica de invenção.)
Batalha das ideias
A autoria foi subvertida porque os novos usos da escrita e da leitura mudam as mentes de seus usuários. Pode-se afirmar que essa subversão também afeta profundamente as formas de exercício do poder, se aceitarmos, com Manuel Castells, que “a batalha fundamental pelo poder se produz em nossas mentes” (vídeo da apresentação do livroComunicación y poder), ou seja, a persuasão é mais decisiva do que a coerção.
Viajemos desde a leitura da Bíblia para analfabetos, pelo oficiante da missa cristã, até a produção de textos em blogues e redes sociais, passando pelo momento decisivo anterior, a invenção dos tipos móveis por Gutenberg, datável de 1455, quando ficou pronto o primeiro livro feito com essa técnica de impressão. Até o final do século 15, 20 milhões de exemplares de livros foram impressos na Europa, que não tinha mais do que 70 a 80 milhões de habitantes.
Como escreveu James Gleick em A informação – Uma história, uma teoria, uma enxurrada, “cada novo suporte transforma a natureza do pensamento humano”. Para concordar com Castells e com Gleick, basta pensar nas dificuldades atuais do ensino público, apartado da realidade tecnológica das vidas privadas de alunos e professores.
O homem criador
Impossível separar o livro moderno, que chega à Europa no fim da Idade Média, do abandono do mundo pelo Deus cristão, ou vice-versa: o livro é instrumento do desencantamento do mundo. “O humanismo renascentista enfatiza o poder da atividade humana. É o começo da libertação de uma concepção teocêntrica do mundo e da espécie humana”, diz o professor Roberto González Echevarría numa aula em Yale sobre o Dom Quixote.
Esse processo de libertação está em curso e possivelmente ainda não passou do começo. Não atingiu, por exemplo, sincera ou fingidamente, nenhum dos candidatos à Presidência do Brasil em 2014. Vai demorar. Mas há poucos séculos, ou décadas, dependendo do país, era impossível ler alguma proclamação de ateísmo num artigo de jornal (Espanha e Portugal são dois exemplos do segundo caso). Hoje, no Brasil, é fato (ou feito) quase diário.
Ruptura dentro da ruptura
Essa longa introdução nos traz à conjuntura atual do país.
As ruas de junho de 2013 foram uma ruptura política brasileira dentro do processo planetário de ruptura decorrente do advento da internet. A presidente Dilma Rousseff, personagem imposta ao PT e ao establishment político do país pelo então presidente Lula, tentou dialogar com o movimento, espontâneo e desordenado, mas esbarrou em dois obstáculos decisivos.
O primeiro foi que nenhum governo poderia aplacar uma insatisfação decorrente de tão ampla e persistente gama de desigualdades e injustiça social como a que marca a ferro a sociedade brasileira. O segundo é sua própria personalidade, tendente a esconder insegurança sob o véu do mandonismo. Dilma não veio ao mundo para representar o teatro do diálogo.
O movimento de 2013 não tinha, diferentemente da passeata dos Cem Mil de 1968, nada parecido com um comando minimamente unificável. Temeu-se a dispersão pura e simples de tanta energia. Adeptos da violência revolucionária e desordeiros violentos (o que se costumava chamar de lumpesinato), em articulação subjetiva entre si e objetiva com forças policiais, afastaram as massas das manifestações. Um ano depois, sindicatos e outras entidades voltaram às ruas, mas agora já não se tratava da expressão de um escopo amplo – “Desculpe o transtorno, estamos reformando o país” – e sim de reivindicações profissionais específicas.
No entanto, o impulso que levou à rebelião das ruas, longamente nutrido, não foi refreado. Assim como os meios de comunicação, em especial a mídia jornalística, tiveram sua vida alterada para sempre, gradualmente, pela internet (e mais ainda pela mobilidade), a política no Brasil sofreu um tranco fortíssimo. A trajetória de Marina Silva, a única que aumentou seu cacife depois das ruas de junho/2013, é a prova. Ganhe ela ou não a eleição, a mudança foi colossal.
Cobertura canhestra
A cobertura da atual campanha eleitoral revela que a mídia jornalística do país não entendeu isso e segue ainda a cartilha dos marqueteiros e mandachuvas de campanhas, baseada em ataques mais ou menos sórdidos, declarações e factoides. A mídia jornalística é o papagaio das campanhas. Novidades, só na divulgação de pesquisas de opinião, elas mesmas ferramentas políticas manipuláveis e manipuladas.
A Justiça Eleitoral rege um espetáculo ridículo, sem se dar conta de que nada pode ser mais mortal para a participação política do que a tentativa, compartilhada por quase todo o espectro político, de fazer o cidadão de bobo.
A tarefa de uma mídia inteligente seria buscar uma descrição de políticas públicas consensuais – ou das diferentes propostas acreditadas em instâncias competentes, como universidades, centros de pesquisa, ONGs sérias –, comparar esse ideal com o que foi efetivamente realizado e apresentar as diferentes ideias de continuidade, aprofundamento ou correção. Educação, saúde, saneamento básico, reforma das instituições e da política, cultura, mobilidade urbana, segurança pública e assim por diante. Avaliar permanentemente o exercício do poder e suas premissas. Ajudar cada cidadão a buscar, como escreveu Marco Aurélio Nogueira no título de um livro, um Estado a serviço da sociedade.
O processo de escolha de parlamentares continua quase totalmente ignorado, enquanto se discute, com frequência, o esgotamento do “presidencialismo de coalizão”.
Haverá sempre a desculpa de que as redações estão desfalcadas, os salários são baixos etc. Mas o fator fundamental que inibe essa ambição é a falta de visão política dos donos dos meios de comunicação e dos editores. E o despreparo das equipes para a tarefa.
A essência da política
O advento da internet já provocou uma ruptura na maneira como se exercem três atividades sociais inseparáveis – a política, o poder e a comunicação –, mas não modificou ainda, com a radicalidade que será visível em algum momento do futuro próximo, as estruturas que as canalizam.
Deixemos política e poder a cargo dos especialistas, embora não seja necessário ter diploma de nenhuma natureza para entender que o Brasil, para falar do território habitado pelo leitor, livrou-se desde junho de 2013 de um pesado manto de imobilismo cuidadosamente cultivado pelo duopólio de poder estabelecido por forças políticas oriundas da luta pela derrota da ditadura de 1964, com uma decisiva e interessada ajuda de forças econômicas e sociais capazes de se acomodar ao regime democrático sem perder a proeminência que tiveram no regime anterior. E, é claro, com a participação incessante, onipresente, dos meios de comunicação.
Sabendo, insista-se, que a separação entre as três partes só existe como exercício analítico (Perry Anderson, piauí, número 95, “Berlusconização da política“: “... a comunicação não é mais um instrumento da política, mas sua essência”), tratemos apenas da comunicação e da informação.
Interatividade ignorada
Pode-se supor que existe contradição inarredável entre jornalismo impresso e online, mas o que na verdade existe é uma conexão essencial, tão arraigada quanto, por exemplo, a que liga a palavra escrita à palavra falada. Assim como houve conexão visceral entre o impresso e o manuscrito: o impresso mimetizou o manuscrito. Não se inventou uma nova escrita, como não se a inventou agora, para uso na internet, apesar de adaptações infanto-juvenis e solecismos generalizados.
(Seria tremenda injustiça atribuir apenas aos jovens e – involuntariamente – pouco letrados usuários da internet a prática de solecismos. Nos jornais diários eles agridem o leitor com uma frequência assombrosa. Folha de S.Paulo, 4 de setembro, página A4: “A estabilização das intenções de voto em Marina foram apuradas após alguns dias...”; Valor, mesma data, página A10: “... 79% dos pesquisados são contra a liberação da maconha e do aborto, 80 é a favor da redução da maioridade penal e 53% condenam o casamento entre...”; O Estado de S. Paulo, mesma data, título da página A7: “Governador do PT exalta candidatas de luta social” – ???)
Nenhum meio de comunicação existente quando do surgimento da internet conseguiu incorporar a interatividade que esta proporciona. O Observatório da Imprensa onlineconseguiu, porque nasceu na própria rede. Em maio de 1997, oito meses após ter se tornado periódico, já era possível fazer um balanço da participação dos leitores, responsáveis por 40% de todo o texto (rolar até “O.I., uma voz da consciência na fronteira tecnológica”).
Limites da qualidade
A maneira como a jornalista argentina Graciela Mochkofsky trabalhou em seu livro Estação terminal – viajar e morrer como animais (rolar até “Como animais”) chama a atenção para as limitações do modelo de jornalismo vigente. O livro-reportagem de Graciela é da estirpe dos melhores que podem ser feitos. Incorpora qualidades notáveis de apuração e de narrativa. Mostra implacavelmente diferentes fatores que conduziram ao acidente.
Ao concluir sua leitura, um desdobramento da indignação consiste em pensar no que poderia ter sido feito para evitar a tragédia. E então se é levado a pensar que uma rede de colaboradores cidadãos, usando meios digitais, pode impedir a progressão de descalabros, pode ser usada, por intermédio de uma redação jornalística – que produza para impressoras ou para computadores –, na mobilização de protestos que constranjam administradores, servidores relapsos, aproveitadores, vigaristas, ladrões.
Nessa chave, o jornal deixa de apenas descrever, quase sempre o que já aconteceu, e passa a ser uma ferramenta de ação política, em política pública e política tout court. Explicitamente, como tudo deve ser feito em jornalismo. A serviço de setores da sociedade agregados pela vivência comum de problemas, ou da sociedade toda, não apenas dos poderosos.
O problema não é do business model. É do modelo político da mídia jornalística (sempre e intimamente entrelaçada ao entretenimento).
Apoiar cidadãos
Discutiu-se mais uma vez, nesta campanha, se jornais devem explicitar seu apoio a candidatos. Esse tema pode estar superado. Ao colocá-lo em tela, não se questiona o processo de seleção de candidaturas, quase totalmente viciado pelo financiamento das campanhas.
O candidato de um grande partido não é aquele que seus correligionários consagram, que tem bom trânsito político, projeção pública, capacidade de captar votos, é antes de mais nada alguém que depende da simpatia ou tolerância dos grandes financiadores de sua candidatura.
Muito mais e melhor do que dizer que, em seus espaços de opinião, o veículo apoia esse ou aquele indivíduo, daqui para frente, para ter sucesso, jornais e revistas terão de abandonar a postura falsa da objetividade e tomar posição. Não necessariamente partidária, embora inevitavelmente ideológica, mas posição sobretudo em relação a políticas públicas, ao funcionamento do governo e à vida do povo.
Até aqui, o jornalismo tem se limitado a narrar sucessos e fracassos dos governos, após o acontecido, gerando munição para ataques de adversários e “fogo amigo”, com o que se desdobra a mesma pauta, mas agora focada na ficção punitiva. A punição quase nunca vem; a boa reputação quase nunca volta. Além de denúncias, veiculam-se planos, sonhos, promessas e lorotas.
Daqui em diante, com a colaboração dos cidadãos, ligados em rede pela internet, a mídia jornalística deverá acompanhar cada passo das obras e da prestação de serviços públicos. Daí poderá nascer um business model.
Ninja: bom caminho
Uma experiência importante é a da Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), que difunde relatos em tempo real de indivíduos participantes de atos públicos. Não encontrou o caminho do jornalismo, que é o filtro profissional das narrativas, e sua independência foi questionada devido às ligações com o coletivo Fora do Eixo e deste com governos das esferas federal, estadual e municipal. Mas começou a explorar uma trilha fecunda.
Os ninjas do novo modelo poderão ser os passageiros do transporte público, os alunos, professores e pais, os usuários da saúde pública, os moradores das cidades e de suas “periferias”, as vítimas das duas modalidades de crime organizado – a dos bandidos e a da polícia –, os cidadãos que lidam com a burocracia etc.
A possibilidade de sucesso dessa modalidade de colaboração é atestada pelos serviços que o Disque-Denúncia presta no Rio de Janeiro, em São Paulo e alhures – usando a centenária tecnologia do telefone.
MPL acertou
Quem acertou em cheio, como movimento social, foram o MPL (Movimento Passe Livre) e, recentemente, o MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto) – substituto, em relevância, num país quase totalmente urbanizado, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). O grande êxito do MPL e do MTST repousa, em boa parte, na sua opção por ações focadas em políticas públicas específicas – transportes e moradia.
Esses movimentos impuseram suas pautas à cobertura acomodada da mídia jornalística. Ao MPL cabem os louros históricos de ter sido o gatilho dos protestos de junho e julho de 2013, depois de dez anos de insistência na mesma reivindicação, desde a Revolta do Buzu, em Salvador.
Contextos específicos
Um alerta é indispensável, nesta trilha de raciocínio. É preciso ter em mente que todas as generalizações feitas a respeito do funcionamento da internet são necessariamente enganosas. Não existe uma “internet única universal”. A internet sempre se situa em determinados contextos, sempre é apropriada por grupos nacionais (língua, vocabulário, sintaxe), sociais (“povão”, intelectuais, crianças, adolescentes, homens e mulheres em plena trajetória profissional, idosos – que parecem ter encontrado no Facebook o seu recanto provisoriamente ideal –, estruturas políticas, militantes, governos, crime organizado, prostitutas, religiões etc.) e regionais.
Especificamente, o jornalismo brasileiro na internet nasceu nas redações das mídias impressas e eletrônicas. Muito mais nas das primeiras: jornais e revistas têm uma longa tradição de receber e publicar cartas dos leitores (uma seleção delas). Emissoras de televisão buscam conhecer seu público mediante pesquisas de opinião quantitativas e qualitativas, embora recebam também grande volume de correspondência.
Em outras palavras, por incrível que pareça, ou não, jornais e revistas são mais suscetíveis à interação, essa palavra muito repetida e pouco analisada. A televisão no Brasil, país de povo historicamente analfabeto, fez tal sucesso que se instalou muito confortavelmente na posição de “emissor de um para muitos”. O rádio, nos locais onde a telefonia fixa havia alcançado um patamar mínimo de disseminação, foi muito mais aberto à participação do ouvinte. Com o celular, muitíssimo mais. Exemplo bem conhecido é o das informações sobre o pesadelo do trânsito nas grandes cidades do país. Mas não há periódico impresso que não tenha, e desde há muito, uma seção de cartas dos leitores. Até o Granma, de Fidel e Raúl, tem (veja aqui).
Honra às redações
Entretanto, o modo de funcionamento de qualquer tipo de redação atual é uma narrativa relevante para construir as futuras redações. É dela que se partirá. Um dia, o modo de pensar, receber e usar a notícia, a informação, a análise, será muito diferente do atual, mas ele terá uma raiz, e ela conterá, esperemos, elementos essenciais da democracia.
Um número suficiente de experiências desatinadas de exploração do admirável mundo novo digital mostra que os erros mais elementares são cometidos em nome da inovação, ou, talvez mais propriamente, da novidade. Ou nem isso: cortam-se os laços com práticas sólidas do passado demitindo jornalistas veteranos, que têm salários maiores.
O mundo não é uma maravilha com as redações que nele existem, mas seria calamitoso sem elas, porque nelas sempre existe pelo menos um resíduo de humanismo, de concepção democrática, busca da liberdade, uma resistência contra a barbárie, ainda que a direção, os donos, ou chefes, queiram pura truculência. Só fascistas (e stalinistas) montaram redações sem qualquer diversidade.
Essa é uma das razões pelas quais se torna altamente recomendável conhecer o modo de funcionamento das atuais redações, descrevê-lo adequadamente. Há nelas muito que aprender. E elas correm o risco de desaparecer, em prazo destrutivamente curto, levadas pela miopia empresarial e política.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A história da heroína Joana d'Arc

Os franceses comemoram os 600 anos de Joana d'Arc. Veja o que há de verdade e mito nesse personagem

http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/ 

Diego Inglez De Souza | 30/01/2012 11h10
Acredite se quiser. Vivendo em um pequeno vilarejo, pastora religiosa, pobre e virgem ouve vozes de santos dizendo que ela tem uma missão divina: libertar a França de uma guerra que já durava quase um século. Ela convence um nobre a levá-la à presença do rei, a quem revela sua missão numa conversa a sós e ganha dele um exército de 7 mil homens. Depois de muitas vitórias e algumas derrotas, é capturada pelo inimigo, acusada de bruxaria e queimada viva. Sua morte a transforma em mártir, séculos depois ela vira santa e uma das padroeiras de seu país. Se essa história convenceu você, saiba que não está sozinho. Nos últimos 500 anos, é essa a versão oficial contada aos franceses sobre Joana d'Arc, a Pucelle, ou Donzela, que ajudou a libertar seu país da terrível Guerra dos Cem Anos, contra a Inglaterra. Estudos recentes, em número cada vez maior, vêm desacreditando o mito que transformou Joana em libertadora durante a vida e em símbolo nacional a partir do século 19.

Os franceses comemoram o 600º aniversário da Donzela no dia 6 de janeiro. Mas até sua data de nascimento, em Dom Remy, na região de Lorena, é coberta de imprecisões. Oficialmente, a data vem de seu depoimento aos inquisidores em 1431, ainda que ela tenha sido bastante imprecisa: "Ao que me parece, tenho por volta de 19 anos". Sua amiga de infância, Hauviette, nascida em 1410, afirmava que Joana era 3 ou 4 anos mais velha do que ela. Alguns cronistas dizem que, ao se encontrar com o rei, em 1428, Joana teria dito que tinha 21 anos. Parece confuso? Bom, estamos celebrando 600 anos de Joana d'Arc, mas ela deve ter nascido em 1407 ou 1408. Para piorar, na época o calendário utilizado era o Juliano, cujo ano tinha duração variável (podia ter 330 ou mais de 400 dias) e começava na Páscoa.

Qualquer que tenha sido sua idade, a história de Joana marca um período em que o próprio reino da França esteve ameaçado. Ela viveu na fase final da Guerra dos Cem Anos, o maior conflito europeu da Idade Média (veja na página ao lado). Na história oficial, à frente de seu exército, a pastora liberta a cidade de Orleans após ser ferida em batalha e recusar as ordens de retirada.

Queimada viva
Depois, cavalgou por 11 dias escoltando o delfim, o futuro rei da França, Carlos, à Catedral de Reims, onde ele foi coroado, em 17 de julho de 1429. As vozes que ouvia seriam de são Miguel, santa Margarida e santa Catarina, com instruções divinas para a reconquista da França. Foi seguindo as vozes que, contra a vontade do rei - então em negociações secretas para selar a paz com os ingleses - partiu para a tomada de Paris, seguida por 9 mil soldados. Ferida por uma flecha que atravessou sua coxa, foi obrigada a recuar. Mas meses depois organizou seu próprio exército, participou de expedições punitivas e libertou várias cidades, até cair prisioneira durante o cerco de Compiègne. Vendida aos ingleses, foi condenada por heresia e bruxaria e queimada viva em Rouen, o quartel-general das forças invasoras. Em 1455, anos depois do fim da guerra, Joana foi reabilitada por um novo tribunal da Inquisição - considerada inocente e elevada à categoria de mártir. Em 1920, virou santa, devido a milagres ocorridos no século 19, e não por seus feitos militares ou seu papel de porta-voz divina. Dois anos depois, tornou-se uma das padroeiras da França.

Desde o século 19, duas correntes, relegadas pela historiografia oficial, tentam dar sentido ao mito de Joana d'Arc: os bastardistas e os sobrevivistas. Para os bastardistas, Joana seria a filha da rainha Isabela com o cunhado, o duque Luís de Orleans, notório amante da monarca. O rei Carlos 4º tinha ataques de loucura de tal magnitude que ele era proibido de dividir o mesmo quarto com a rainha, que vivia em um palácio próprio em Paris. O duque de Orleans era tido como o pai do último dos 12 filhos de Isabela, Felipe, que teria nascido morto. Para os bastardistas, a suposta morte do bebê seria um artifício para encobrir o escândalo e a criança teria sido entregue a vassalos para ser criada longe da corte. O bebê seria Joana. A teoria ajuda a explicar a ascendência dela sobre os cavaleiros e o fato de ser recebida pelo futuro rei da França - algo improvável, mesmo que a Donzela evocasse sua "missão divina". A origem nobre explicaria o episódio de uma maneira bem mais terrena e contextualizada. Para os bastardistas, não por acaso, a primeira cidade libertada por Joana e seus homens foi Orleans, terra de seu suposto pai, assassinado por aliados dos ingleses em 1407.

Os sobrevivistas defendem que Joana não ardeu na fogueira. A base dos argumentos são as narrativas da execução. As janelas das casas que davam para a praça do Velho Mercado, em Rouen, foram tampadas com madeira. A mulher queimada estava com o rosto coberto. O carrasco foi impedido de acender a fogueira - a tarefa ficou a cargo dos inquisidores. Também havia ordens expressas para que o corpo calcinado fosse queimado novamente e as cinzas jogadas no rio Sena, que banha a cidade, para evitar que surgissem relíquias. Só o coração teria sobrevivido ao fogo - alimentando a imaginação da população. Se Joana tivesse mesmo sangue real, faz sentido imaginar que outra pessoa pegou fogo em seu lugar, na opinião dos sobrevivistas.

As falsas Joanas

Os adeptos da teoria dizem que Joana reapareceu depois de alguns anos nos mesmos locais por onde havia passado. Há anotações em livros de contas de cidades fortificadas com o gasto de muita cerveja e vinho em cidades que foram libertadas por Joana d'Arc em homenagens a outra Joana, de Armoises, casada com o cavaleiro Robert de Armoises. Para a história oficial, Joana de Armoises é uma entre muitas falsas Donzelas que apareceram por toda a Europa, aproveitando a fama e a lenda da enviada de Deus para libertar a França. Mas apenas Joana de Armoises foi reconhecida pelos irmãos Pierre e Jehan d'Arc e até pelo próprio rei, Carlos 7º, como a verdadeira Donzela. Se Joana de Armoises é mesmo a Pucelle, um retrato ao lado do marido no castelo de Jaulny, propriedade da família, talvez seja a única representação da heroína francesa fruto da observação direta. E a imagem contrasta radicalmente com as milhares de outras pinturas e esculturas de Joana que se espalharam a partir do século 19 pela França.

Em abril de 2007, pesquisadores que estudaram os supostos restos mortais recolhidos da fogueira de Rouen descobriram que o material pertencia... a uma múmia egípcia. Em setembro daquele ano, o jornalista Marcel Gay e o ex-militar Roger Senzig publicaram L'Affaire Jeanne d'Arc, que ajuda a entender a criação do mito da pastora que ouvia vozes divinas. A lenda seria parte de uma estratégia criada por Yolanda de Anjou para proteger o futuro rei Carlos 7º, noivo de sua filha Marie de Anjou. Yolanda havia recebido uma autorização para criar o pequeno Carlos longe da rainha e de seus irmãos mais velhos. Dois deles morreram em circunstâncias nebulosas e o tal menino tornou-se o delfim. Yolanda teria feito circular por toda a França a lenda que previa o surgimento de uma virgem que libertaria o país - e ajudaria a transformar sua filha em rainha. No ano passado, Bernard Simonay publicou Le Lys et les Ombres (O Lírio e as Sombras, sem edição no Brasil), um romance histórico que tece um enredo plausível de quem foi a real Joana d'Arc. "Fizemos de Joana d'Arc um símbolo, construído sobretudo no fim do século 19", disse Simonay. "Não é falso afirmar que ela é um ícone da França, mas é importante lembrar que não podemos falar de patriotismo ou nacionalismo naquela época. As pessoas eram ligadas ao rei, e não a uma nação."

Legado permanente

No período da Guerra dos Cem Anos, a história de Joana correu a Europa, como se lê em diversas crônicas da Idade Média. Grandes historiadores franceses, como Jules Michelet (1798-1874), dedicaram milhares de páginas a ela. A biblioteca Jeanne d'Arc, em Orleans, cataloga 22 mil documentos ligados à epopeia da Donzela. Durante a 1ª e a 2ª Guerra, a figura de Joana d'Arc motivou soldados franceses. Cartões-postais com sua imagem circulavam nas frentes de batalha e serviam de estímulo às tropas. O general Charles De Gaulle elegeu como símbolo da resistência a cruz de Lorena para evocar a heroína. Hoje, a cruz de Lorena é associada à ultra-direita francesa. Joana estreou nas telas ainda na pré-história do cinema: Georges Meliès dedicou-lhe um filme no século 19. Heroína das mil faces, muito da Joana real - seja ela pastora, nobre ou santa - vai ficar perdido para sempre nas brumas da Idade Média. Mas sua importância para a História da França e o efeito de seu legado na imaginação dos franceses permanecerão para sempre.

O rosto da heroína

A imagem de Joana se multiplicou na França, mas na historiografia oficial não existe nenhum retrato da Donzela real

A donzela

Pesquisadores defendem que Joana não foi queimada na fogueira em Rouen, mas substituída por outra mulher

A santa

Joana foi canonizada por milagres realizados no século 19 e não pelos feitos militares ou por ouvir vozes divinas

Símbolo nacional

Cartões-postais são uma obssessão francesa. Muitos usaram Joana como símbolo de alento para os soldados no século 20, durante a 1ª e a 2ª Guerra.
A guerra de Joana
O cenário da Guerra dos Cem Anos é a França, mas as origens do conflito são como uma mão invertida. Em 1066, Guilherme 1º, duque da Normandia, conquistou a Inglaterra. Criou-se ali uma situação curiosa: ainda que Guilherme fosse um rei inglês, era um vassalo do rei da França, na condição de duque da Normandia. Em 1154, seu sucessor, Henri 2º, casou-se com Aliénor de Aquitânia, o que lhe garantia a metade do atual território francês. A situação permaneceu estranha, mas sob controle, até 1328, quando o rei da França, Carlos 4º, morreu sem deixar herdeiro. Eduardo 3º, da Inglaterra, sobrinho de Carlos, postulou o reino. O conde de Valois, neto de Felipe 3º, antigo rei francês, também reivindicou o trono. Uma assembleia convocada para resolver a questão ficou do lado de Valois. Eduardo aceitou a decisão, até Valois iniciar manobras para retirar parte de seu território. A guerra começou em 1337 e só terminou em 1453, com a vitória francesa. Os ingleses, que tinham como aliado o ducado de Borgonha, ficaram com uma pequena faixa ao redor de Calais, que mantiveram até 1558.

Saiba mais

Livros

Le Lys et les Ombres, Bernard Simonay, Calmann-Levy, 2011
L'Affaire Jeanne d'Arc, Marcel Gay, Roger Senzig, Editions Florent Massot, 2007

Racismo e punição a "pano, pão e pau"

Só exemplos e Estado reparador podem combater a violência que está entranhada na cultura do racismo
por Rosana Pinheiro-Machado  publicado 01/09/2014 18:47
Ivan Storti / Divulgação Santos FC
Um jogador de futebol é chamado de macaco por uma multidão de torcedores.
Uma menina negra posta uma foto com seu namorado branco e é humilhada por uma multidão virtual.
Um morador de rua negro é o único condenado das manifestações de junho de 2013 por carregar Pinho Sol.
Tem algo errado no Brasil, ainda.
***
A persistência do modelo escravagista brasileiro da Casa Grande e da Senzala no Brasil democrático do século XXI se dá em diversos níveis: na relação tão próxima quanto doentia entre patroas e suas empregadas domésticas, na segregação espacial e, principalmente, na lógica punitiva que insiste em manter o horror da política do “pano, pão e pau”.
O racismo institucional brasileiro – aquele que ninguém se acha racista, mas todo mundo conhece um racista - é uma continuidade histórica desse modelo de Gilberto Freyre acerca da ideologia da mistura (a qual se funda na troca de fluidos entre a dócil negra que amamenta a sinhazinha ou o sêmen do coronel que a estupra). Todavia, esse sistema, que foi tão intimamente germinado, apresenta mais separação do que fusão, mais apartheid e castas do que a fábula das três raças. O que prevalece é segregação territorial e suas regras claras de circulação. A transgressão desse lugar simbólico ou espacial – onde cada um deveria saber bem o seu lugar – sempre fora severamente punida.
A verdade é que o Brasil ainda é uma das sociedades mais racistas, segregadas e violentas do mundo. Diversas formas de linchamento físico e moral compõem o corolário de práticas cotidianas. E a maioria das feridas sobre o corpo e a consciência negra é silenciosa e invisível. Elas ocorrem longe das redes sociais, nas periferias, onde a violência histórica e estrutural do Estado brasileiro se faz presente diariamente ao negar os direitos fundamentais e ao inserir uma polícia violenta e brutal.
A semana passada foi particularmente intensa no conflito racial. Mais um jogador de futebol é chamado de macaco. Mais uma menina negra é humilhada:
- Onde comprou essa escrava?
- Seu dono?
- Parece até que estão na senzala
- Um Branco e uma Negosa
Assim como o jogador de futebol, a menina é rebaixada a um status humano menor. Mas só a menina é tratada como escrava, como objeto sexual e mercadoria. “Me vende ela” – diz um rapaz, ao reforçar a cultura machista geradora da violência sexual contra a mulher negra e pobre.
Em ambos os casos, deparamo-nos com punições informais em face do cruzamento de fronteiras. Ofensas que rebaixam as pessoas, que tentam levá-las de volta para uma suposta realidade da qual elas não deveriam jamais ter deixado.
Do lado das punições formais, Rafael Braga, negro e em situação de rua, é o único condenado pelas manifestações de rua de 2013 por carregar Pinho Sol. Aliás, pergunto-me o que teria acontecido se fosse uma mulher negra carregando Pinho Sol. Tenho certeza que o objeto seria considerado ideal e inocente, digno de seu papel social: o da limpeza. Já o homem seguirá o caminho das prisões brasileiras, onde encontrará outros milhares de corpos negros abarrotados, aguardando a tortura do Estado brasileiro, onde novamente serão tratados com ódio, a pano, pão e pau – como nos velhos tempos.
Este tem sido um ano difícil. Começamos com shoppings centers fechando suas portas para os jovens da periferia nos “rolezinhos”. Outros meninos, em contrapartida, destilaram seu ódio na internet: “eles merecem mesmo é tomar pau da polícia”. A propósito, falando em polícia, copio aqui as palavras de Milena Manfredini: “Amarildo, Claudia Ferreira da Silva [vítimas da brutalidade policial], eu não me esqueço!”.
Mas foi bom ter lembrado de Milena. Permita-me brevemente apresentá-la. Uma mulher negra, uma estudante de origem humilde. Hoje, com a bolsa de estudo que recebe, constrói sua carreira de cientista social em um das principais universidades do país. Ela é sensível, culta, cheia de esperança e com um pouco de revolta também – o que também é sempre necessário. Como ela me disse a respeito de Amarildo e Rafael: eles são um de nós.
Milena tem colegas de faculdade que também fazem esse trânsito, de maneira brilhante, inspiradora e engajada, entre a política e a academia. Esses jovens – assim como tantos outros aptos a ocuparem lugares estratégicos no futuro – são certamente o que melhor vi neste ano tão duro; neste ano em que parece que se abriram os bueiros e os ratos racistas, sexistas e classistas saíram para rua.
O racismo velado se desvela. Mas eu prefiro acreditar que esta onda de ódio – que se manifesta em atos que amarram um  adolescente negro a um poste em nome da justiça ou nas torturas das palavras virtuais e dos gritos em estádios – não significa que as coisas estejam iguais ou piores. Prefiro acreditar que se trata da reação em face do movimento sutil das placas tectônicas da sociedade de classes brasileira, que ponta para uma leve ruptura entre os limites do apartheid que existia (e que ainda tenta desesperadamente existir) entre a Casa Grande e a Senzala. Prefiro acreditar que é uma reação, por exemplo, a esses jovens que insistem em transgredir, em romper as barreiras e a ocupar as vagas das melhores universidades brasileiras.
Somente muitas Milenas – e um Estado que continue ressarcindo as atrocidades cometidas pela escravidão – podem combater a violência que está entranhada na cultura do racismo. Somente muitas Milenas podem cortar esse comportamento de manada que, atualmente, tem encorajado os covardes racistas. É preciso que muitas Milenas rompam o ciclo e ocupem o establishment. É preciso muitas Milenas para fechar os bueiros e reorganizar a democracia racial de direito e de fato.